Versos Da Cidade

Léafar Chiaro

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    Do alto do prédio, a gárgula observa
    Cada detalhe dessa rochosa selva
    Cada nuance de luz em meio às trevas
    Até onde o olhar alcança a tênue relva
    A esta altura, tudo é minimizado
    A dor do outro, como se estivéssemos imunizados
    Vira manchete breve no noticiário
    E some, esquecida como mais um presidiário
    Ninguém deseja um desconfortável confronto
    Mantenha a esperança do fim mágico do conto
    Assim, o respeitável público caminha tonto
    E todos acabam vistos como pequenos pontos
    Há os pontos de exclamação
    Que enxergam tudo com muita emoção
    Existem os de interrogação
    Sempre a questionar qualquer ação
    E há também, nas curvas dos sinais
    Os pontos que encontram seus finais
    Ah, as fortuitas reticências
    Indicando o mistério da existência
    Vírgulas, quando precisas, a inspirar
    A breve pausa para melhor respirar
    E surgem dois pontos pela alameda
    Para que a explicação, por fim, suceda

    Ponto e vírgula no peito, a pausa que nos mede
    Entre o que pesa e o que a alma ainda não cede
    A gárgula viu a dor, o espelho da aflição
    Mas no fim do verso, há sempre uma exclamação
    Não somos mais traços, nem símbolos inertes
    Somos a força que o confidente travessão insere

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    Do colossal terraço, a cidade se espalha
    Em linhas de luz que dançam sobre o concreto
    O vento sopra histórias, mas a audição falha
    E cada vida lá embaixo, traços em um texto discreto
    Entre taças de cristal e murmúrios elegantes
    Sinto que até nós, passageiros do instante
    Somos símbolos numa frase ainda inacabada
    Pontuações fugazes em meio à infinita estrada
    O horizonte se curva em brilhos e sombra
    E cada semáforo acende perguntas na noite
    As avenidas, rios de carros e passos que assombram
    Carregam histórias marcadas pelos açoites
    Algumas janelas revelam sorrisos furtivos
    Outras guardam silêncios de vidro e realidade concreta
    E percebo que cada gesto humano é um ponto lenitivo
    Uma pausa, uma exclamação, uma dúvida secreta
    As lâmpadas piscam como aspas duplas em suspensões
    De momentos urbanos que insistem em existir
    E entre risos e brindes, nos tornamos travessões
    Destacando breves frases de afetos a persistir
    Talvez os prédios, elevados como pensamentos
    Sejam ponto e vírgula, convidando à meditação
    E nós, sentados aqui, contemplando a cidade
    Aprendemos a escrever nossa própria verdade

    Ponto e vírgula no peito, a pausa que nos mede
    Entre o que pesa e o que a alma ainda não cede
    A gárgula viu a dor, o espelho da aflição
    Mas no fim do verso, há sempre uma exclamação
    Não somos mais traços, nem símbolos inertes
    Somos a força que o confidente travessão insere

    Información de la canción

    Composición: Rafael Silveira Chiaro

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