Espelho Arabalero

Leonel Gomez

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    Aqui não é mais o campo tampouco será cidade
    Aqui se levantam ranchos na boca dos arrabaldes
    Nem o silêncio do campo nem o estrondo da cidade
    Só a voz dum rasguido-doble num rádio às duas da tarde

    Rancheirio de fim de mundo erguido sobre uma linha
    E uma sorte que no fundo nem mesmo Deus advinha
    Aqui um bolicho de tábua sortido à canha e mais nada
    Abre quando o sol destapa e não cerra de madrugada

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    Há um gaitero paroquiano que faz da canha o sustento
    Borracho faz quase um ano dormindo sobre o instrumento
    E um relampiado que grita "toque um tango arabalero"
    Que abre de amor e desdicha, de traición y desespero

    O gaiteiro se incorpora soltando acorde e poeira
    E acalma o tremor dos dedos com a cachaça brasileira
    E o som vai ganhando as ruas mormaço de tarde clara
    Vem se infiltrando nos pátios pelas cercas de taquara

    E neste espelho se enxerga o povo dos arrabaldes
    Quem deixou de ser do campo pra nunca ser da cidade
    Aqui um bolicho de taboa sortido à canha e mais nada
    Abre quando o sol destapa e não cerra de madrugada

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