A Morte de Pedro Ninguém

Luiz Menezes

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    Veio a cantiga da noite
    Na garupa do aguaceiro
    Cabresteada pelo vento
    Até um relâmpado alçado
    Andou pateando o espaço
    Preludiando um temporal

    Mas oigatê como é brabo
    Este tal de mês de agosto!

    A voz do preto Clarindo
    Veio do fundo do rancho
    Que se velava o finado
    O Juca, vai lá na venda
    E compra dois real de gayeta
    E um naco de fumo grande
    Que a noite vai ser comprida

    Lá fora o céu era negro
    Assim como um campo grande
    Que fora queimado a pouco

    O Juca pediu a bênção
    Pra seu padrinho Clarindo
    E se enfurnou noite a dentro
    Na direção do bolicho
    Agora só a luz das velas
    Clareava os rostos sombrios
    Da peonada no velório
    Onde o respeito era pouco

    Pois entre risos e ditos
    Iam se contando causos
    De peleias, de carreiras
    E de chinas mal-domadas
    Esquecidas do finado

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    Foi quando o preto Clarindo
    Compreendendo o desrespeito
    Pelo coitado do morto
    Tirou uma longa tragada
    Pigarreou como pensando
    Para afinal sentenciar
    O homem que nasce pobre
    É como um cavalo xucro
    É pealado pela vida
    Sofre a doma das tristezas
    Até que um dia se amansa
    Perde a vontade e a fé
    Depois já sem serventia
    Morre na beira do alambrado
    Esquecido
    Sem ninguém!

    Vejam vocês nesta noite
    O Pedro já não existe
    Amanhã se vai o corpo
    Pois a alma do coitado
    De há muito já estava morta

    Andava assim como andam
    Miles de guasca sem rumo
    Fugindo pelos atalhos
    Do povoado e das taperas

    Bueno total é da vida!
    E amanhã será um de nós

    Até a viúva quando saiba
    Que o pobre Pedro morreu
    Decerto vai chorar pouco
    Chorar é pra quem tem tempo
    E o tempo pra o pobre é escasso
    Pra se lastimar à toa
    Quando já não se tem remédio
    Nem a esperança num cobre

    Livino, me passa a canha
    Que é pra esquentá o pensamento!

    Caramba como faz frio
    Neste tal de mês de agosto!

    Um trovão rolou no espaço
    E a chuva seguiu cantando
    No funeral da saudade

    Saudade?
    Ora, saudade!
    A saudade não tem tempo
    De chorar Pedro ninguém

    Información de la canción

    Composición: Luiz Menezes

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