poeira de setembro
Mateus Lago
O calor do cerrado
Derrete o asfalto da praça
O rádio de pilha chiando
Uma velha trapaça
A poeira azul levanta
Com o vento do sul
E o homem da esquina
Me vende um chiclete azul
Sentado no banco
Olhando o jumento passar
Um pequi caiu no chão
Ninguém vai catar
Os carros de luxo buzinam
Na avenida Tocantins
Meninas de saia rodada
E sapatos de cetim
Um louco na calçada
Prega que o mundo vai desabar
Enquanto a vizinha limpa a calçada
Sem pressa de entrar
Tem um brilho esquisito
No fundo daquele quintal
Mas o povo só quer saber
Se o almoço tem sal
É o vento que passa
E carrega o chapéu de palha
A kombi do leite
Furando o pneu na valha
Ninguém sabe de onde veio
A fumaça
Mas todo mundo corre
Pro meio da praça
O guarda da esquina cochila
Encostado no muro
E diz que o destino da gente
É viver no escuro
O trem do subúrbio apita
Avisando a partida
Deixando uma marca esquisita
Na pele ferida
O doutor de jaleco chegou
Com um balde na mão
Mas o gato já correu
Pro meio do matagal, meu irmão
Sirenes no centro
Poeira no setor coimbra
A velha rezando
Com medo da sua quizumba
O contador estala
Parece que vai quebrar
Mas a gente só quer
Uma sombra pra poder sentar
Ninguém fala o nome
Do que aconteceu
O rádio desligou
E a conversa morreu
É o vento que passa
E carrega o chapéu de palha
A kombi do leite
Furando o pneu na valha
Ninguém sabe de onde veio
A fumaça
Mas todo mundo corre
Pro meio da praça
Setembro passou
O chão esfriou
Goiânia de terra
Goiânia de Sol
A noite fechou
A cortina do lençol
Não olha pro lado
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