Dia do Anonimato

Michel F.M.

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    Dobrou a esquina decidido
    A percorrer um trajeto inabitual,
    Descendo a rua irregular
    Notou pedestres e a muvuca central.

    Gradeados, o asfalto, telhados,
    Uma mureta com degrau,
    Lojas, butiques, bazares,
    Um açougue liquidando bacalhau.

    Automóveis, lixeiras, lixo no chão
    E alguma forma vegetal,
    Flores num canteiro, um bueiro,
    Caixotes, tubulações em geral.

    No estacionamento vazio
    Se encontrava escondido um casal.
    Paralelo ao centro financeiro,
    Muitas cifras, cortesia impessoal,

    Ternos de luxo, limusines, distinção,
    Suavidade fria e cordial,
    Um ligeira coxo que revirava
    Uma tralha imunda próximo ao local.

    Passava um cliente importante
    Pelo detector de metais digital.

    Trinta e dois minutos atrás,
    Uma madame foi assaltada; um marginal,
    Foi demitido de um emprego normal,
    Por não ter concluído 2° grau.

    Uns metros dali estouraram o cartel
    De uma quadrilha internacional,
    Esquema armado, escutas, grampos,
    Traçado por uma equipe federal.

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    Ergueu a mão prum ex-companheiro
    Da época que bateu o ponto usual,
    Apertava parafusos, rosqueava,
    Martelava e polia na fabriqueta de pedal,

    Nunca viu a empresa inteira,
    Mas sabia que dali saiam bicicletas no final.

    Parou numa barraca do calçadão,
    Encostou no balcão e pediu um curau,
    Limpou-se com guardanapo de papel reciclável,
    Recordou a vida rural.

    Que remeteu à puberdade,
    Tingida de idealismos e anseio liberal.
    Ouviu o sino e depois um hino
    Vindo da igreja onde ensaiava o coral.

    Leu o título dum livro grafado num outdoor,
    Best-seller na imprensa oficial,
    "a doutrina dos humildes", volume que
    Despertou-lhe o entusiasmo literal,

    Vendeu 40 milhões de exemplares,
    Virou mini-série de comoção nacional.

    Freqüentador assíduo,
    Adentrou no boteco,
    Pediu um téco na medida total,

    Uma pinga com cinzano
    Que desceu raspano
    Que nem água com sal.

    Travou um carteado
    Com os camaradas pingaiadas,
    Gente fina esse pessoal !

    Virtuoso e desapegado,
    Teve cinco filhos,
    Uma esposa e a ela foi leal.

    Nunca em semanas, meses, anos,
    Centenários e milésimos de segundos,
    Após aquele dia, na história de todos os dias,
    Em todos os dias dos tempos,
    Em todos os tempos da história,
    Apareceu-lhe outro dia tão excepcional.

    Deu-se por satisfeito, visto que
    Com efeito, percorreu seu trajeto inabitual.

    No Dia do Anonimato ocorreu um fato,
    Que não alterou absolutamente coisa alguma.

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    Composition: Michel F.M

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