A têmpora lateja
O quarto está no escuro
Mas eu acendo a chama
Desse vidro ímpuro
Minha cabeça vai explodir
A dor é um trovão
Mas eu não largo o peso
Da palma da mão
Eu sei que é o culpado
Eu sei que é o veneno
Mas diante desse brilho
Eu me sinto tão pequeno
O Sol mal nasceu
Eu nem abri o olhar
Mas a mão já tateia
O que vai me escravizar
É um neurônio externo
Uma extensão do ser
Que dita o que eu devo
Sentir ou querer
Vendi minha retina
Por um pouco de atenção
Troquei a vida real
Por uma simulação
Eu sou a mariposa
Aprisionada na luz
Beijando as grades
Que a tela produz
Você já não sabe
Quem você é de verdade
A rede te moldou
Na sua própria vaidade
Ele te estuda
Ele sabe o seu ponto
Te mantém preso
Te deixa tonto
Pior que qualquer droga
Ele te refez
Sou escravo do brilho
Uma de cada vez
Eu vejo o mundo cinza
As cores se perderam
Filtros artificiais
Meus olhos corromperam
Expectativas altas
Que a tela criou
Mataram a beleza
Que o real preservou
Estou preso no feed
Em loop infinito
Enquanto o meu brilho próprio
Se torna um conflito
Lateja, lateja
Mas eu quero olhar
Queima o meu nervo
Mas eu vou rolar
Cem toneladas de chumbo
Seriam mais leves
Do que essa dor
Que o meu cárcere descreve
Outro
Ele me estudou
Ele sabe como me manter
Eu já não existo
Só o vidro pode ver
Quem sou eu
Quando a bateria acabar?