A Flor e o Abismo

Newton Jayme

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    Na mão, eu trouxe a flor das madrugadas
    A flor febril dos pálidos vergéis
    Trazia o sangue rúbeo das romãs
    E o incêndio triste dos ocasos fiéis

    Era a tua cor, a mesma
    A mesma
    Que eu via arder nos céus do teu olhar
    Quando tua alma, em cânticos submersa
    Fazia a noite inteira soluçar

    Abriam-se os balcões da ventania
    Dormia a Lua em túnicas de gás

    E eu caminhava, espectro da saudade
    Levando o coração como um rapaz
    Leva aos altares a primeira espada
    Antes da guerra lhe rasgar a paz

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    Ó minha amada! Quantos cemitérios
    Cabem na sombra de uma despedida?
    Quantas auroras morrem silenciosas
    No breve espaço de uma mão perdida?

    Teu nome, outrora, era um sino de ouro
    Banhando a tarde em vibrações de mel
    Hoje é apenas pássaro ensanguentado
    Batendo as asas pelas grades do céu

    Eu te encontrei
    Teu rosto era mais pálido que a névoa
    Que sobe aos montes quando o inverno vem
    Havia em teus cabelos a tristeza
    Das catedrais que não recebem ninguém

    Então calei
    Porque há dores que possuem templos
    Onde a palavra humana não entrou
    E a própria lágrima, cansada e fria
    Ajoelha-se aos pés de quem amou

    Deixei a flor sobre
    A madeira escura
    Tu não sorriste
    Mas teus dedos lentos
    Tocaram suas pétalas cansadas
    Como quem toca ruínas e fragmentos

    Depois parti
    A noite abriu as asas sobre a rua
    Os lampiões tremiam de terror
    E eu fui sozinho, carregando o peito
    Como um navio afunda o próprio amor

    Información de la canción

    Composición: Newton Jayme

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