Corre lenhador, corre sem olhar
Algo entre os troncos quer te alcançar
Passo tão leve, ninguém viu passar
Mas folhas se calam quando ela está lá
Menina da mata, quem foi te criar?
Por que esses teus olhos insistem em brilhar?
Por que tua sombra não pisa no chão?
Por que o teu riso parece assombração?
No ombro o machado acompanha o silêncio
Os galhos se curvam num velho respeito
Ela não tropeça, não suja os pés
Como se a floresta tivesse um viés
Quem é você sob esse véu?
Por que a Lua te chama do céu?
Se é só uma moça perdida no breu
Por que o bosque inteiro obedece ao teu?
Corre, corre, corre
A Lua já chamou
Corre, corre, corre
O bosque despertou
Corre, corre, corre
Se ouvires sua voz, ela vem colher mais um de nós
Quem foi que te deu pra floresta assim?
Quem foi que te fez esquecer de ti?
Se a Lua te chama, tu tens que ir
Se a mata te prende, não podes sair
Corre, corre, corre
A Lua te espera
Corre, corre, corre
Ela tá com pressa
Corre, corre, corre
Já tá uma fera
Não queira ver quando ela se estressa
Sangue no altar, Lua a sangrar
O bosque em vigília mandou te chamar
Nome perdido, rosto esquecido
Menina, quem que te trouxe pra cá?
Mãos em oração, ferro na mão
Passo guiados por maldição
Se o rito falhar, vai despertar aquilo que vive debaixo do altar
Dizem que a vila parou de falar
Quando a colheita começou secar
Gado morria, água virou féu
E o medo crescia debaixo do céu
Dizem que os velhos fecharam a mão
Sobre um segredo e uma maldição
Que sob as raízes dormia alguém
Com fome de sangue e promessa também
Então numa noite de Lua ferida
Levaram uma filha vestida de linho
As mãos tão pequenas e o corpo tremia
Mas sua família abaixou o rostinho
Menina da mata você se lembrou
Quando te entregaram você perdoou
Foi teu próprio pai que não te buscou
Foi tua própria mãe que não te chamou
Quem te cobriu com esse capuz?
Quem apagou teu nome da cruz?
Quem te deitou pra morrer no chão e te devolveu sem coração?
Corre, corre, corre
A Lua já chamou
Corre, corre, corre
O bosque despertou
Corre, corre, corre
Se ouvires sua voz, ela vem colher mais um de nós
Quem foi que te deu pra floresta assim?
Quem foi que te fez esquecer de ti?
Se a Lua te chama, tu tens que ir
Se a mata te prende, não podes sair
Corre, corre, corre
A Lua te espera
Corre, corre, corre
Ela tá com pressa
Corre, corre, corre
Já tá uma fera
Não queira ver quando ela se estressa
Ela não responde, então baixa o olhar
Acho que escutou alguém sussurrar
Uma voz sem rosto, presa na raiz
Dizendo: Mate mais um e será feliz
O ferro desceu, mas ela ficou
O sangue caiu, mas ela voltou
É um ser humano ou bicho da mata?
É a sacerdote da deusa macabra
Agora ela caça por devoção
Ou por medo da antiga punição
Se para uma noite, a terra se abre
Se falha no rito, a Lua tem fome
Ela traz os homens pra sua matança
Foi sacrificada e busca vingança
Leva os soberbos, que vem por ganho
E as vezes os puros que passam sem dano
Menina da mata, tu choras depois?
Ou já não existe mais nada de nós?
Ainda há uma criança em ti ou só essa coisa vivendo ai?
E cada oferenda sustenta o horror
Do mal adormecido ao som do tambor
Então ela mata pra coisa dormir
E mata de novo pra não sucumbir
Não é fome, o buraco é mais embaixo
Não é prazer, quer dizer Eu acho
Se ela cair, se o rito cessar
Talvez toda a vila comece a afundar
Então, filha da Lua
Quando isso acabar, vai sobrar uma alma pra te perdoar?
Ou quando o silêncio da mata ceder
Volta de onde veio ou se deixa morrer?
Corre, corre, corre
A Lua já chamou
Corre, corre, corre
O bosque despertou
Corre, corre, corre
Se ouvires sua voz, ela vem colher mais um de nós
Quem foi que te deu pra floresta assim?
Quem foi que te fez esquecer de ti?
Se a Lua te chama, tu tens que ir
Se a mata te prende, não podes sair
Corre, corre, corre
A Lua te espera
Corre, corre, corre
Ela tá com pressa
Corre, corre, corre
Já tá uma fera
Não queira ver quando ela se estressa