DESCONFORTO

Stefanie

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    Marretando rima, quebrando esses paradigma
    Tanta história revoltante que chega a me indignar
    Me ame ou me odeie
    Trago desconforto
    Cês quer viver no conforto e nóis, quer uma vida digna

    Vou contar uns episódios que dá até uma minissérie
    Primeira que eu me lembro foi lá na segunda série
    Quando a gente é criança não se tem entendimento
    Mas já sentia na pele um diferente tratamento

    Tinha poucas amizades, andava com a Mariana
    Minha aliada do primeiro, lembrava uma indiana
    Um certo dia aconteceu uma situação
    Que foi tão desagradável, nos deixou sem reação

    Tinha rolado uma festinha, não recebemos convite
    Desde cedo já existe pessoas que nos evite
    Do nada uma aluna chega e fala
    Vocês não foram convidadas pra festa da Clara

    Porque você é preta e a Mariana é gorda
    Num tom maldoso, nem se preocupou em fazer sala

    Crianças educadas por adultos, cuidado!
    Estamos ensinando os nossos a se defender
    Na infância, chorei tanto, engoli vários insultos
    Não levo mais desaforo se alguém vir me ofender
    Pois vai se arrepender!

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    Hoje eles querem calma
    Depois de nos causarem vários traumas
    Agora entendo por que cresci retraída
    Por todas as vezes que eu já fui excluída

    Por muito pouco eu não me afoguei em mágoas
    Nesse mar de gente, era só um peixe fora d'água

    Marretando rima, quebrando esses paradigma
    Tanta história revoltante que chega a me indignar
    Me ame ou me odeie
    Trago desconforto
    Cês quer viver no conforto e nóis, quer uma vida digna

    Se fosse só comigo, tava bom
    Mas isso já é rotina pra quem tem a cor marrom
    É doce, mas não é bombom
    Ter a pele preta às vezes é amargo
    A nossa vida é muita treta

    Nos tratam sempre como subalternos
    Difícil aceitar ver um preto
    Ocupando um cargo de liderança
    Meu mano NP doutor
    Evita usar terno no shopping
    Pois sempre acham que ele é o segurança

    Estudando virava as madrugada
    Passou de cara na OB, se tornou advogada
    Mas no escritório era vista como a secretária
    No fórum, adivinha? Era a mera estagiária

    A cada caso que recordo, não tem como
    Me revolto e vejo o quanto vocês são ridículo
    A Ale só passou a ser chamada nas entrevistas de trampo
    Quando tirou sua foto do currículo

    Pra nós é desconforto e pra vocês tanto faz
    Falam que é vitimismo pra causa diminuir
    Pra essas madame branca, somos só serviçais
    É um velho clichê

    O problema não é ser confundida como atendente
    É que vocês não querem ver uma Shirley pra presidente!

    Marretando rima, quebrando esses paradigma
    Tanta história revoltante que chega a me indignar
    Me ame ou me odeie
    Trago desconforto
    Cês quer viver no conforto e nóis, quer uma vida digna

    Se a vida não tá fácil pra ninguém
    Imagina pra quem a pele escura tem
    Então nem vem me falar que tá tudo bem
    Nem vem que eu não trago desconforto pra quem?

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