Carolina Maria de Jesus

Tinga

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    Vou abrir o meu diário para ler o inventário
    Das mazelas mais febris
    De sequela em sequela, da senzala à favela
    Nas entranhas do país
    Muitos fugiam de mim ou me olhavam sem me ver
    Preconceito marfim que me fez aprender
    Escapar dos lixões e da submissão
    Mas não me anulei
    Do papel que catei fiz abolição
    E vi que a dor que não sai nos jornais
    Vem dos meus ancestrais falsamente libertos
    Pra quem faz papelão de mobília
    Casa de família é o caminho mais certo

    Ê canindé, cada um com sua cruz
    Ê canindé, eu também sou de Jesus
    Sinto a fome do excluído
    Sente o gume do facão
    Vim dar nome ao esquecido
    Sem registro ou certidão

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    Negro drama
    Sem nenhum futuro, na terra batida
    É a trama, os murros e muros, cidade partida
    A grana nos condomínios e seus perdulários
    Pelo domínio de mais proletários
    A desigualdade é a chama da inquietação
    Tijuca dá lugar de fala a um quarto de despejo
    A letra retinta tornou-se lampejo
    Traz escrevivências pra denunciar
    A dor de quem tem fome
    É o desprezo de quem come
    Só quem viveu pra contar

    (Carolina)
    Maria de Jesus e dos brasis
    Não há amarra que vá nos fazer parar
    Um livro aberto fala mais que mil fuzis
    Abre a porta social pro meu Borel entrar

    Información de la canción

    Composición: Dudu, Totonho, Lequinho, Julio Alves, Jorge Arthur, Gabriel Machado, Fadico, Cláudio Russo y Chico Alves

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