Decassílabo: Cenário do Sertão

Valdir Teles

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    Atirar de espingarda lazarina
    Ver cachorro acuado com tatu
    Um vaqueiro pegar um boi zebu
    Enfrentando os perigos da campina
    Gavião escondido na faxina
    Pra pegar pinto novo no oitão
    Um matuto soltando foguetão
    Avisando de um filho que nasceu
    Só conhece essas coisas quem viveu
    No cenário poético do Sertão

    Arma foge Vereda de preá
    Fachiar passarinho na durmida
    Tucaiar as marrecas na bebida
    Ver galinha fugir do carcará
    Fazer pasta de rapá de juá
    Que a espuma é do jeito de sabão
    Criar péba no fundo de um caixão
    Quem morou no sertão nunca esqueceu
    Só conhece essas coisas quem viveu
    No cenário poético do Sertão

    Pega bicho que rouba e botar pêa
    Dá conselho a vizinho que se intriga
    Proibir cachaceiro caçar briga
    Que brigar sem razão é coisa feia
    Botar broca e plantar em terra alheia
    Pagar meia de milho e de feijão
    Ver bicudo acabando algodão
    E não chorar pela safra que perdeu
    Só conhece essas coisas quem viveu
    No cenário poético do Sertão

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    Fazer parto de vaca no terreiro
    Bota marcha em passada de cavalo
    Acertar o relógio pelo Galo
    Saber tipo de flores pelo cheiro
    Dançar baile na luz do Candeeiro
    Paquerando a filha do patrão
    Segurar jararaca com a mão
    E curar uma vez que ela mordeu
    Só conhece essas coisas quem viveu
    No cenário poético do Sertão

    Reunir os vizinhos pra rezado
    Primeiro de Maio ao derradeiro
    Arrancar capuchu e formigueiro
    Fazer bola de meia pra jogar
    Rouba moça pra outro se casar
    Ver menino brincando com pião
    Fazer aposta correndo com o irmão
    Pra saber quem ganhou ou quem perdeu
    Só conhece essas coisas quem viveu
    No cenário poético do Sertão

    Um menino fazendo uma arapuca
    Pra pegar codorniz, pomba, inhambu
    Uma cobra brigando com tiú
    Um boi manso assombrado com mutuca
    Dois matutos travados na sinuca
    Pra saber quem dos dois é campeão
    Budegueiro contando no balcão
    Quantas canas um pinguço já bebeu
    Só conhece essas coisas quem viveu
    No cenário poético do Sertão

    A cabeça de um boi numa estaca
    Uma briga de um touro com um carneiro
    Uma cabra berrando no chiqueiro
    Um cachorro fugindo da Ticaca
    Um tiú enfrentando uma jararaca
    E curasse com leite de peão
    Urubus procurando refeição
    Na caveira de um bicho que morreu
    Só conhece essas coisas quem viveu
    No cenário poético do Sertão

    Botar água de lá inté anacoreta
    Cortar a lenha com foice e com machado
    Pegar touro valente no cercado
    Atirar espingarda de vaqueta
    Machucar a pimenta malagueta
    Faz molho no caldo do feijão
    As abelhas dos zangão
    Conhecer capuchu, cupira e breu
    Só conhece essas coisas quem viveu
    No cenário poético do Sertão

    Información de la canción

    Composición: Valdir Teles · Moacir Laurentino

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