A Dama da Porta

Walber Costa

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    O que vocês chamam de fé
    Nada mais é
    Do que uma criança clamando por amor
    De joelhos no escuro
    Falando com ecos
    Esperando que o vazio responda

    Eu sei que há algo aqui
    Eu sei, consigo sentir
    Como uma febre escondida atrás das paredes
    Tudo parece normal
    Mas não está
    Nunca esteve

    Tem alguma coisa embaixo
    Pulsando devagar
    Respirando sob a terra molhada
    Tentando sair
    Ou talvez me chamar para descer
    E eu não sei mais
    Se estou procurando
    Ou sendo atraído

    Preciso arrancar da terra
    Trazer até a superfície
    Abrir camada por camada
    Até meus dedos sangrarem
    Até eu finalmente ver

    Porque eu sei que está lá
    Esperando
    Dormindo dentro da carne do mundo

    Eu errei, errei, errei
    Não, talvez não tenha errado
    Mas também nunca acertei
    Nunca toquei o centro exato da ferida

    Preciso cavar mais fundo
    Mais perto do sangue
    Mais perto do osso
    Mais perto daquela coisa respirando atrás dos meus olhos

    Eu estava olhando para fora
    Para corredores
    Para sombras
    Para vultos nas portas
    Mas estava em mim

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    Existe alguém dentro de mim

    O médico veio hoje
    Sorriso cansado
    Prancheta nas mãos
    Disse que serei liberado em breve
    Que é hora de ir para casa

    Eu deveria estar feliz
    Mas estou com medo
    Com muito medo

    Porque parece que algo está para acontecer
    Como o último suspiro antes de afundar
    Como silêncio antes de um prédio cair
    Como um corpo boiando antes de abrir os olhos

    E no fundo
    Eu sei
    É tarde demais para voltar atrás

    Ela é alguém que ninguém conhece
    Só eu consigo ver
    A dama da porta

    Parada entre ferrugem e luz morta
    Esperando por mim
    Como se soubesse meu nome desde criança

    Ninguém pode cruzar
    A ponte de fios dela sem cair
    Sem sentir o peso dos próprios crimes
    Costurados nos tornozelos

    Ela se alimenta do que escondemos
    Dos pecados esquecidos
    Das culpas enterradas vivas

    Como cadáveres inchados e feios
    Bocejando no fundo do rio
    Ela devora pecados
    E os pecadores junto deles

    Mas a mim
    Ela salva

    Ou talvez
    Só esteja me levando
    Para onde eu sempre pertenço

    Ainda consigo ouvir
    Algo pulsando sob o chão

    E agora
    Já não sei
    Se é o mundo tentando entrar em mim

    Ou eu tentando voltar
    Para dentro dele

    Información de la canción

    Composición: Walber Costa

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