Ferreira
Walber Costa
No chão seco de almenara
Nasceu um menino sem nada
Pé descalço pela estrada
E o destino olhando calado
Estudou pouco nessa vida
Mas aprendeu com o coração
Que o homem cresce no tempo
Quando enfrenta a solidão
Com doze anos já partia
Pra cuidar sozinho do gado
Saiu cedo da família
Levando coragem ao lado
Foi morar com seu tio
Aprendeu o peso do chão
O berrante virou canto
Batendo forte no peito então
Anos depois virou boiadeiro
Levando boiada sem parar
De fazenda em fazenda
Com a poeira cobrindo o olhar
E o sertão virou morada
Seu céu, seu sonho, sua fé
Cada estrela iluminava
O caminho de Antônio Ferreira
Ferreira
Homem feito de Sol e poeira
Tinha o mundo nas rédeas
E a liberdade na maneira
Ferreira
Seu coração nunca deixou o sertão
Mesmo quando a vida feriu
Nunca morreu sua paixão
Foi em Santa Cruz da Galileia
Que o futuro lhe sorriu
Quando encontrou dona nilda
E o amor enfim surgiu
Se apaixonaram na calma
Casaram diante do céu
Vivendo em fazenda e pasto
Sob o brilho cruel do mel
Tomando conta do gado
Proprietário bené confiou
E ali nasceu seu menino
Sua maior alegria chegou
Ainda pequeno no colo
Já sentia o vento passar
Antônio ensinava o filho
Bem cedo a cavalgar
Depois veio o Espírito Santo
Capinando roça no chão
Foi segurança, foi guerreiro
Mas nunca largou a paixão
Porque o sertão não abandona
Quem nasceu pra galopar
Mesmo longe da poeira
Seu peito queria voltar
Na capital encontrou de novo
O que fazia ele viver
Adestrando cavalos fortes
Via a alma renascer
Acordava vendo o Sol
Colorindo o arrebol
Tratava, cuidava e corria
Livre sob o girassol
Dormia com o entardecer
E a paz do campo no olhar
Como se Deus escrevesse
Seu nome no próprio ar
Mas o coração doeu forte
Veio a pontada sem avisar
E o homem que vivia cavalo
Foi obrigado a parar
Voltou pra cidade pequena
Carregando tristeza e dor
Sem poder sentir o vento
Nem ouvir relincho ao redor
Mas a vida outra vez sorriu
E ele voltou a montar
Cada cavalgada era um grito
De quem nasceu pra voar
Só que toda felicidade
Sempre cobra o seu valor
E o preço daquela liberdade
Foi alto demais, meu senhor
Depois da capina naquele dia
Sua mente silenciou
E o homem forte do campo
Nunca mais se levantou
Ficou somente a lembrança
E a vontade em seu olhar
De subir mais uma vez
Num cavalo pra galopar
Ferreira
O tempo não levou sua essência
Porque homem de alma livre
Nunca conhece ausência
Ferreira
Eu ainda posso ouvir sua voz
Chamando o cavalo ao longe
Galopando dentro de nós
E hoje eu só espero o dia
De novamente lhe encontrar
Pra lhe chamar pra mais uma volta
Mas dessa vez
Pra nunca mais desmontar