O Horizonte De Vidro

Walber Costa

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    O mapa que carrego foi desenhado na areia
    Pelo vento que sopra de um norte que não existe
    Construí uma bússola de espelhos cegos
    Procurando o reflexo de um Sol que nunca assiste
    Ao próprio nascer
    Cada passo é uma nota afinada no silêncio
    Cada suspiro, um rascunho de uma geometria sagrada
    Que insisto em traçar no escuro

    Eu coleciono frações de segundos ideais
    Ajustando a luz como se pudesse consertar o tempo
    Tento esculpir o mar com mãos de brisa
    Querendo a estátua imutável na água em movimento
    Minha oficina é feita de vácuo e teimosia
    O cinzel é de sonho, a pedra é de fumaça
    E a peça final é sempre um labirinto
    Onde a saída se apaga assim que a mão passa

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    Dizem que a linha do horizonte é um convite ao abismo
    Eu chamo de tela onde projeto o meu delírio
    Se o erro é a única forma de contorno
    Eu pintei a minha vida inteira com o traço da discórdia
    E ainda assim, meu pincel insiste no traço perfeito
    Mesmo sabendo que a tela é um campo de neve
    Onde a última pegada sempre desaparece

    A perfeição é uma estrela que já morreu há milênios
    Mas eu ainda cultivo o brilho que chega aos meus olhos
    Não é sobre tocar o cume da montanha de éter
    É sobre a resistência da bota contra o cascalho
    Eu não busco o ponto final, eu busco a vírgula eterna
    Aquele detalhe invisível que falta ao universo
    Sou o arquiteto que planeja a casa com paredes de vento
    E me orgulho de ser o único inquilino
    De um projeto que nunca terminará de ser belo

    E quando o dia finda, e a tinta seca na sombra
    Eu me desfaço do esboço, apenas para recomeçar
    Porque a busca não é a falta do que alcançar
    É o exercício de nunca se contentar com o chão
    Enquanto houver um milímetro de infinito
    Para tentar, mais uma vez, desenhar

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    Composition: Walber Costa

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