Vou Dar de Beber À Dor

Yolanda Soares

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    Foi no domingo passado que passei
    À casa onde viveu a mariquinhas
    Mas está tudo tão mudado
    Que não vi em nenhum lado
    As tais janelas que tinham tabuinhas
    Do rés-do-chao ao telhado
    Não vi nada nada nada
    Que pudesse recordar-me a mariquinhas
    E há um vidro quebrado e isolado
    Onde havia as tabuinhas

    Entrei e onde era a sala agora está
    Á secretária um sujeito que é lingrinhas
    E não há colchas com barra
    Nem viola nem guitarra
    Nem espreitadelas furtivas das vizinhas
    O tempo cravou a garra
    Na alma daquela casa
    Onde às vezes petiscávamos sardinhas
    Quando em noites de guitarra e de farra
    Estava alegre a mariquinhas.

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    As janelas tão garridas que ficavam
    Com cortinados de chita às pintinhas
    Perderam de todo a graça
    Porque é hoje uma vidraça
    Com cercadura de lata às voltinhas
    E lá p´ra dentro quem passa
    Hoje é p´ra ir aos penhores
    Entregar ao usuário umas coisinhas
    Chegou a esta desgraça toda a graça
    Da casa da mariquinhas.

    P´ra terem feito da casa o que fizeram
    Melhor fora que a mandassem p´ras alminhas
    Pois ser casa de penhor
    O que foi viveiro de amor
    É ideia que não cabe cá nas minhas
    Recordações de calor
    E das saudades o gosto
    Que vou procurar esquecer numas ginjinhas
    Pois dar de beber à dor é o melhor
    Já dizia a mariquinhas.

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