Já O Tempo Se Habitua

Zeca Afonso

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    Já o tempo
    Se habitua
    A estar alerta
    Nao há luz
    Que nao resista
    A noite cega
    Já a rosa
    Perde o cheiro
    E a cor vermelha
    Cai a flor
    Da laranjeira
    A cova incerta
    Agua mole
    Agua bendita
    Fresca serra
    Lava a língua
    Lava a lama
    Lava a guerra
    Já o tempo
    Se acostuma
    A cova funda
    Já tem cama
    E sepultura
    Toda a terra
    Nem o voo
    Do milhano
    Ao vento leste
    Nem a rota
    Da gaivota
    Ao vento norte
    Nem toda
    A força do pano
    Todo o ano
    Quebra a proa
    Do mais forte
    Nem a morte
    Já o mundo
    Se nao lembra

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    De cantigas
    Tanta areia
    Suja tanta
    Erva daninha
    A nenhuma
    Porta aberta
    Chega a lua
    Cai a flor
    Da laranjeira
    A cova incerta
    Nem o voo
    Do milhano
    Ao vento leste
    Nem a rota
    da gaivota
    ao vento norte
    Nem toda
    a força do pano
    todo o ano
    Quebra a proa
    do mais forte
    nem a morte
    Entre as vilas
    E as muralhas
    Da moirama
    Sobre a espiga
    E sobre a palha
    Que derrama
    Sobre as ondas
    Sobre a praia
    Já o tempo
    Perde a fala
    E perde o riso
    Perde o amor

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