Cifra Club

Mea Culpa (Somente Minha)

algo rítmico

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De todos os sentimentos que nos tomam
Nos preenchem
E nos transbordam
De todas as vontades
Pedidos, desejos e orações por milagres
Só há um único incômodo
Às vezes, tão habitual
E acostumado a existir dentro da gente
Que esquecemos de nos livrarmos dele
E o transformamos
Despropositadamente
Em nosso pior pesadelo
A nos tirar noite de sono
E nos trazer dias de fúria
Por deixá-lo pousar levemente em nosso dorso
E sussurrar aos ouvidos
Como uma velha maldosa que mira o defeito de outros
Tão somente para esconder o que é nosso
O que não devia ser nosso
Porém quando se torna nosso
Exige recuar o ataque
E admitir sem ensaio
A parte que nos cabe de culpa

Eu sei, você sabe
Mas tanto você quanto eu finge devaneios para não ter de assumir
Quando se passou do ponto
Quando se foi mais por menos
E quando o nosso exagero
Na ânsia de se mostrar certo
Achou por bem ignorar o que havia perto
E manter bem longe o que nos deixa menor
Tão menor que quase sumimos
Tão menor que faz com que risos
Saiam travados
Entredentes, em vários bocados
Compreendidos como deboche
No momento em que deviam ter leveza
Vistos como sarcasmo
Nas horas frias das incertezas
Que podem nos deixar agir
De modo impensado
No ímpeto de avaliar sozinho
Que estar do lado certo é estar do próprio lado
Deixando de lado
Do lado de fora, que fique bem claro
Qualquer sintoma ou sinal de razão

Por isso eu me culpo
Me ergo do chão e, com calma, me culpo
Se em todo esse tempo
Eu fui incapaz de aceitar que me cabe
Senão tudo, certamente o pedaço maior
De tudo que vi repetir
Nos meus lábios de ódio
E nos meus olhos de choro
Como se os atalhos sombrios
Que se tornaram madrugadas perdidas
Em canções desencontradas
Fosse de responsabilidade
- um tanto contratual
E outro tanto por minha única decisão -
Sua, apenas sua, e de mais ninguém

E nós sabemos que não é
Nem bem assim, nem nada perto disso
Já é hora, agora, nesse minuto, pra já
Faça silêncio que vou entoar
Aquilo que sei que você sempre quis

É minha
Vou repetir para não ficar dúvidas
É minha
Totalmente minha
Unicamente minha
A culpa da tragédia que quis roteirizar
Com o seu protagonismo
É tão somente minha e eu preciso explicar

É minha porque eu baixei a guarda
Mesmo sabendo o quão baixa, vil e mesquinha
Mesmo ciente da auto zombaria
Da malícia, do vazio moral e da fraude
Que te vestiram por todo esse tempo
Enquanto mentia com a depravação dos perversos
Enquanto se enganava
Apostando a vida dos outros
E colocando pra jogo
Um jogo podre, mal visto e imbecil
De contar moedas com o dinheiro dos outros
De disfarçar com perfumes baratos
O cheio de merda que exala dos fracassados
Que, assim como você
Vivem da sinestesia de ser metade podridão
E metade carniça

Veja só e tente discordar
Como não seria minha a culpa
Se fui eu que ignorou os avisos
Se fui eu que não dei importância às placas
Que já nem avisavam perigo
Ou muito menos cuidado
Porque sabiam
Da mesma forma que eu devia saber
Que quanto alguém como você
Um resto de estrume
Um sulco de chorume
Um misto de esgoto e escárnio
Sobrevivente de uma mitomania merecida
Não teria nada para oferecer
Além do desbunde vagabundo
Dos protótipos falidos de gente
Que entre o descarte no lixo comum
E o banquete dos ratos
Enojados com sua existência
Teve um tempo digno
Para transformar em imundície
E memória purulenta
A se desinfetar com ácido
A estadia nos dias
Que lhe foram emprestados
Por confiança e sem juros
Mas lhe viu esfregar as entranhas pegajosas
Sob a cama, o chão, o tapete, as paredes
E fazer dos répteis mais asquerosos
Um exemplo sutil de repulsa comedida

Ah, a minha culpa!
Minha, minha, só minha, tão minha
Que caminha bamba
Nessa espiral de vingança
Que é incapaz de lhe desejar o mal
Porque desejar é pouco
Quando o que se precisa
Pra deixar a alma livre
E o peito cheio de qualquer coisa
Que me faça voltar a adormecer
Que me deixe tentar, ao menos
Dar mais dois ou três passos
Nem que seja para lhe enfiar na garganta
Sem sequer saber se nela cabe
Essa porra de vidro de pelos
O resto do resto que você causou
E obrigá-la a engolir e mastigar
Cada pedacinho afiado e pontiagudo
De todos esses cacos de vidro
Cacos de memória
E cacos de desgraça
Que se exigem mais do que ritos
Mais do que preces
E muito mais do que vontades

Eu não preciso considerar uma só regra

Porque quando não se tem nada a perder
Não há um motivo sequer
Para não se perder também o controle
Largar a mão de quem for
E tirar o braço do próprio ombro

Afinal
Eu descobri
Finalmente eu descobri
A localização exata onde foi que me perdi
Mas quando tentei
E juro, como eu tentei!
Me tirar do fundo do poço
Veio você
Com toneladas de boas intenções
E fez a única coisa que sempre fez muito bem

Destruir!

E deixar rastros
Lamacentos rastros
Na gaveta de memórias
No pensamento de rascunhos
E nos parágrafos disformes

Mas no meu caso
No meu mais sincero caso
Que seja de joelhos
Ou seja apoiado sobre meus escombros
Ainda assim
Vai ficar barato
E muito
Muito barato
Te mostrar e sorrindo
Que nem o mais impiedoso demônio
Teria coragem de dar a alguém o que você me deu

Então, vá por mim
Ou vá puta que te pariu
Mas vá agora
Vá logo
Porque se demorar a ir
Pode ser que se arrependa
Do dia em que me fez decidir
Sem outra opção
Morar dentro de mim

Pra sempre

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