Tem fumaça entrando pelas frestas
E um gosto de ferrugem no ar
Os passos ecoam no concreto
Como alguém tentando voltar
O corredor parece infinito
Portas fechadas sem numeração
Todo mundo baixa os olhos
Como quem já perdeu o perdão
E eu continuo andando
Mesmo ouvindo a combustão
Porque o silêncio daqui
Tem o peso de uma oração
O inferno não tem chamas altas
Nem demônios em procissão
Só gente tentando esconder
O próprio coração
E cada culpa mal enterrada
Volta em forma de carvão
O inferno começa pequeno
Dentro da própria respiração
Tem vidro quebrado nos cantos
E vozes atrás da parede
Alguém ri como quem sangra
Alguém chora como quem cede
Os rostos mudam na sombra
Mas os olhos continuam iguais
Cheios de noites mal dormidas
E palavras que voltam atrás
Talvez o fogo verdadeiro
Nem faça barulho ao queimar
Talvez seja só o vazio
Aprendendo a respirar
O inferno não pede licença
Nem anuncia a direção
Ele cresce devagar
Dentro da negação
E quando tudo vira cinza
Não sobra céu nem chão
Só o eco de alguém
Pedindo absolvição