A alvorada insiste em rasgar o manto da escuridão
Mas meus olhos carregam o peso de uma antiga prisão
O tempo se estica em desertos de horas vãs
Onde o hoje é o rastro amargo de todas as manhãs
Sem você ao meu lado, o mundo insiste em flutuar
E a estrutura em meu peito ameaça desabar
Sinto o corpo como âncora que o mar não quis guardar
Um fardo que se arrasta no compasso do esperar
E nem mesmo os deuses, onde a entrega não faz morada
Podem ler o veredito desta estrada traçada
Se o alto está vazio e o silêncio é o que resta
A sorte se esconde e a vida não faz festa
E me vejo outra vez diante do trono de Morfeu
O senhor do domínio onde o real se esqueceu
Não peço milagres, nem luz que a névoa mova
Apenas um sonho que esta angústia remova
Uma jornada mansa, um repouso sem dor
Longe do peso de um destino opressor
Mas o ciclo é um eco, espiral de sal e vento
Onde o descanso é mito e o vigiar, tormento
Por que fui o escolhido para este eterno ensaio?
Onde o sono me foge e o despertar é meu desmaio
Tudo se repete nesta longa jornada vã
Sou um náufrago da noite
Aguardando o amanhã