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Feudos Cariocas

Everson Pessoa

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O rio não é um rio só
É de montão, ó
Tem o de areia outro de pó
Barro e lixão
É uma sopa de entulho e de dendê
Jiló, sarrabulho com pavê
Um cipó só de nó de cabo a rabo
Que zomba de quem quer desfazer

É feio e lindo
Desde o dia em que nasceu
Num parto feito à revelia
Igual ao meu

O rio não é um rio só
Nunca foi não, não
Duvido que alguém saiba de cór
Quantos que são
A cidade é comum pra cada um
Lado a lado mas sem se misturar
Que se põe de joelho no seu canto
Pro santo que é do seu lugar

Ave rio
Alahu, akbar
Harekrishna
Aleluia, namastê
Shalom rio
Saravá

O rio é de cocórocó
De galo virtual
E de bendenguê num catimbó
E de underground
Mora em casas de ripas de caixote
Em terraços que ficam rente ao céu
Cada boca que cuide do seu mote
Senão vira torre de babel

Foi cego por santa luzia
Mas sem olhar
Encara até cavalaria
E leva e dá

O rio foi afilhado mór
De são sebastião
Será que não tinha outro melhor
Pra sagração
Esse reino de feudos cariocas
Sem muros não tem por quê murar
O limite sutil da pororoca
É o momento em que o rio encontra o mar

Ave rio
Alahu, akbar
Harekrishna
Aleluia, namastê
Shalom rio
Saravá

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