As coisas andam esquisitas
Tão esquisitas
Que a gente desaprendeu
A dizer afeto
Acostumou-se a ficar quieto
Gostar se transformou
Em risco
Então a gente
Inventa disfarces
Diz que é timidez
Ou um pouco arisco
Diz que falta jeito
Antes que o pano se esgarce
Diz que falta tempo
Entre tantos contratempos
A gente diz depois
Como quem acredita no depois
Com a fé distraída dos dias cheios
Contos abandonados ainda no meio
E assim passam as horas e avançamos
Sentado em cadeiras que nunca puxamos
Conversas que ficaram em rascunho
Abraços adiados pela pressa, sem testemunho
Até que um dia
Ai, um dia
Quase sempre tarde demais
A gente percebe que não há mais
O que se fazer
Nem como desfazer
Diante do que jaz
A dizer, só o silêncio é capaz
Mas se não for
Tão tarde quanto dizem
Ainda haja um tanto de amor
Que, de alguma forma, nos polinize
Viver é uma travessia
Um lugar de passagem
Onde se aprende
Se experimenta
Onde se erra
Falha a aterrissagem
Onde se enxerga
Pela janela enviesada
Onde se carrega a mala pesada
De tudo que fomos
Capazes de sentir
De tantas emoções
Que moldam nosso existir
Viemos para melhorar
Para somar alguma coisa ao mundo
Para recolher memórias
O luar a se deitar no mar
Rostos, gostos, respirar fundo
Afetos não ditos
Ah, frutos não mordidos
Depois, talvez, por ventura
Outra história nos aguarde
Uma mais ampla, menos dura
Mais lúdica, menos covarde
Mais parceira, mais inteira
Porque, deste ângulo
Apenas essa vivência
Se não se for um preâmbulo
Seria uma inconsistência
O que dói mesmo
É saber que tanta
Gente vagueia a esmo
E só descobre que era amada
Quando já não pode mais ouvir nada
Ah, o que dói
O que dói mesmo
É saber que tanta
Gente vagueia a esmo
E só descobre que era amada
Quando já não pode mais ouvir
Nada
E com tantos
Foi assim
Por enquanto
Só o fim