Conversei com o escuro à noite
Sabia meu nome inteiro
Chamou minhas culpas pelo apelido
Sentou na beira da cama
Disse que sou feito de falhas
Que minhas mãos têm rachaduras
Que minha fé é um fio fino
Balançando na dúvida
Respondi baixinho
Com a voz que restou do dia
Sou barro
Mas barro que respira
Há uma fresta
Entre o medo e a manhã
Por onde Deus passa
Sem barulho
Entre o abismo e o quintal
Eu escolho ficar
Pés sujos de terra
Coração aberto
Se o mundo pesa nos ombros
Descanso no essencial
Pequeno no caos
Infinito no quintal
Já me culpei por sentir demais
Por amar sem medida
Por querer o mundo justo
Mesmo sabendo que não é
Carrego em mim
Um tribunal e um jardim
No tribunal me acuso
No jardim, recomeço
Quando a noite grita
Lembro da voz da minha avó
Menino, o pão cresce devagar
Mas cresce
Se há dor, que ensine
Se há perda, que molde
Se há silêncio, que abrace
Até eu ouvir meu nome
Sem vergonha
Sem medo
Sem pedir desculpa por existir
Entre o abismo e o quintal
Planto o que restou
Se não tenho certezas
Tenho amor
Se o céu parece distante
Olho o chão do meu lugar
Até o mais profundo abismo
Tem fundo
E no fundo, recomeço
E no fundo, recomeço