Depois de trinta anos
Eu ainda tô aqui
Não porque foi fácil
Mas porque sobrevivi
Trinta invernos de um ego incompleto
Buscando o caminho num mapa incerto
O medo te cega, o medo te molda
Te faz a corrente e te faz a argola
Confundi o silêncio com minha virtude
Mas era o veneno que minha alma deguste
A verdade abala, faz mudar meu semblante
Não sou mais o mesmo, dou um passo adiante
Uma nova visão, a minha nova era
O momento é esse, uma nova versão minha impera
Mas meu subconsciente ainda é uma fera, e
Lá no profundo
O trauma é latente
Uma martelada que
Esmaga minha mente
Os muros se erguem, a luz se retrai
O homem recua, a criança, se vai
O corpo estagna, o peito padece
A cidade infernal aparece
O dia anoitece e a alma adoece
O que resta de mim quando o caos prevalece?
Eu sinto os muros tentando me sufocar
Mas essa cidade infernal
Não vai mais me atentar
Não vai mais
Me atentar
Alienado, cansado, sugado pelo ontem
Contando as derrotas que os outros não contam
Oportunidade? Eu vi passar reto
Eu me sentia indigno, o erro completo
Nada eu sentia, nada eu merecia
Um corpo adulto que a dor conduzia
Pra que sobreviver se o destino é o açoite?
Virei o porteiro da minha própria noite
Sangrando acordado, um sonho enganado
Um réu condenado ao seu próprio passado
A luz
Ela nasce do lodo
Ela queima
O medo todo
Limpa o caminho
Lava a visão
Reconecta o corpo e o coração
Sua vida existe: Existe perdão
Mas, lá no fundo, onde a treva é inerte
Existe uma luz que o destino insere
Expõe a ferida pra cura chegar
Limpa o entulho pra eu caminhar
Não é sobre sorte, é sobre valor
É dar um sentido pra toda essa dor
O mal vai ruir, a cidade cair
Eu não aceitei as chaves pra ter que fugir
O dia anoitece, a minha alma floresce
O que nasce de mim quando o medo enfraquece?
Eu sinto os muros querendo sufocar
Mas essa cidade infernal não vai me atentar
E a luz, ela não veio como um abraço
Veio como um raio, como um desabafo
Você é o herdeiro do próprio valor
O mestre da cura, pois foi mestre da dor
Quem você tocar, sentirá o estrondo
Do eco abissal que ressoa seu pranto
Das cinzas ergueu o seu próprio governo
O santo pecado, escapou do inferno
As trevas se esvaem
Os muros desabam
Aqui é onde
As sombras acabam
O meu céu brilhou, o sorriso voltou
O mundo é em partes reflexo daquilo que sou
O inferno dissolve, a cidade é memória
Eu sou o autor da minha própria história
Meu nome no tempo, na mente e no ar
Pra que o mundo inteiro
Possa se lembrar
Possa se lembrar
Eu sou um cronista
Tenho algo a contar
Essa é minha história
É o meu lugar
Meu lugar
É o meu lugar
A minha história
E o meu lugar
Esse é o meu lugar
Meu lugar