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A Paz do Silenciamento

Léafar Chiaro

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Eu quis a paz, a luz
Amarela brilhando no Natal
A magia da esperança
Um roteiro de final
Pintar a calçada
Vestir a cor da bandeira
Acreditar que a harmonia
Não é só brincadeira
Eu quis o hino alto
O orgulho de nação
Mas abri os olhos
E vi a encenação
A beleza é um cercado
Com arame e guarita
E a cidade modelo pra
Quem é pobre, não habita

Não adianta passar tinta
Cara pra esconder o mofo
A paz de vocês é o
Silêncio do meu sufoco
Dizem que é junto e misturado
Mas a conta não bate
É o luxo e a lama perto
Mas em mundos de embate
A cidade é um cartão-postal
Mas é postal pra quem?
Se o Sol que entra no centro
No meu bairro não vem

Chamaram a professora
De heroína e de guerreira
Pra mascarar que ela
Ensina na lama e na poeira
Chamaram o guarda de
Herói na missão arriscada
Pra esconder que a estrutura
Do estado é furada
Como calar alguém
Senão deixar morrer?
Matar
Quem se levanta incomoda
Mas precisa falar
Não existe cidade exemplar
Com fome e vil agonia
Quando o sangue escorre
E tiros viram sinfonia

O patrão te chama de filho
Te dá um tapinha no ombro
Mas se chove e a casa desmorona
Ele te deixa no escombro
Diz que quem trabalha conquista
Que é só correr atrás
Mas a cor da sua pele
Dita o tamanho da sua paz
Eles postam foto de rede
A vila estética e limpa
Mas dizem que o erro é o pobre
É o que o sistema garimpa
Dizem que o povo destrói
Que não tem educação
Mas quem ergueu o
Palácio com calo na mão?

Não adianta passar tinta
Cara pra esconder o mofo
A paz de vocês é o
Silêncio do meu sufoco
Dizem que é junto e misturado
Mas a conta não bate
É o luxo e a lama perto
Mas em mundos de embate
A cidade é um cartão-postal
Mas é postal pra quem?
Se o Sol que entra no centro
No meu bairro não vem

O verde não é a mata
O amarelo não é o ouro
É o sangue da realeza de quem
Sempre viveu do nosso choro
Dia da independência
Mas liberdade de quê?
Se o povo foi libertado
Sem ter o que comer?
O indígena de paz era
O indígena que aceitou o açoite
A nossa harmonia é
O lucro mantido na noite

Não venha com o discurso
De que somos todos iguais
Enquanto o CEP define
Quem morre e quem vive em paz
A desigualdade caminha
Lado a lado com Ágnus-dei
Quem apanha aprende que
Calar é o peso da lei
A vitrine precisa ser linda
Pra justificar a matança
E a limpeza do centro é
O que enterra a lembrança

Não adianta passar tinta
Cara pra esconder o mofo
A paz de vocês é o
Silêncio do meu sufoco
Dizem que é junto e misturado
Mas a conta não bate
É o luxo e a lama perto
Mas em mundos de embate
A cidade é um cartão-postal
Mas é postal pra quem?
Se o Sol que entra no centro
No meu bairro não vem

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